Em 1998, Louis* se mudou para o Brasil para fazer uma pós-graduação na Universidade de Brasília (UnB). Quando terminou os estudos, voltou para o seu país, a Irlanda, com a mulher, Maria*, que conheceu em Brasília. Mas os dois retornaram para a capital brasileira seis anos depois. “Ela não conseguiu se adaptar ao clima e sentia muita falta da família. Naquela época, a internet ainda não tinha todas essas facilidades e as ligações para o Brasil eram uma fortuna”, lembra o professor.

Adaptar-se à mudança definitiva deu trabalho. “Houve um choque cultural. As pessoas eram desconfiadas de estrangeiros. Não foi fácil fazer parte da sociedade brasiliense. Acho que até brasileiros de outras regiões têm essa dificuldade. Imagine para quem vem de outro país.”

Fazer contatos e ser aceito demorou, conta Louis. O pouco domínio do português dificultou muito a socialização. “Tive que aprender por conta própria, não há um incentivo. Na Irlanda ou no Reino Unido, há aulas de inglês para o estrangeiro conseguir entrar na sociedade, ter oportunidades de trabalho”, compara.

José Zuchiwschi, professor de antropologia da UnB, acredita que o primeiro passo para se adaptar mais rápido a uma nova cultura é deixar a própria um pouco de lado. “É primordial se despir dos seus costumes para vivenciar os dos outros de maneira totalmente aberta. Mas aí está também a principal dificuldade.”

Zuchiwschi explica que existem várias etapas durante o processo de adaptação. Uma delas é sentir falta da própria cultura. “De conversar na língua nata, ter contato com elementos tradicionais”, detalha. Há a etapa do deslumbre, em que tudo novo é bonito, diferente. “Depois desse momento, a pessoa começa a perceber os problemas por ser uma estrangeira e as complicações sociais, políticas e econômicas do país e da condição dela”, detalha.

É nesse ponto que a maioria dos estrangeiros decide voltar para casa, destaca o especialista. Estudos estimam que entre oito e 10 anos começa a vontade de retornar. As pessoas percebem que a condição de estrangeiro sempre vai existir e começam a viver os problemas do país em que estão. “Infelizmente, algumas pessoas menosprezam a cultura do outro, e esse é um problema que o estrangeiro encontra. Podemos destacar as diferenças como algo complicado, mas devemos vê-las de forma positiva. Apesar das diversas culturas, é possível notar o quanto somos iguais”, diz Zuchiwschi.

Mesmo gostando do Brasil, Louis acredita que não faria a mesma escolha novamente, mas voltar para a Irlanda não é mais uma opção. “Provavelmente, seria difícil me readaptar (aos costumes do país). Além disso, seria mais complicado conseguir um trabalho lá, meus pais já faleceram”, pondera.

Lá fora

Helena Barbosa, 23, fez o caminho contrário. Mudou-se para Angers, na França, para estudar. Apesar de a adaptação não ter sido muito difícil, a estudante de psicologia percebeu diferenças entre o comportamento dos brasileiros e o dos franceses. “Achava-os bastante fechados, não são muito acolhedores.”

Acostumada a ter uma boa relação com os docentes da UnB, onde estuda, Helena se incomodou com contato entre professores e alunos na universidade francesa. “Lá, os professores são extremamente distantes, o modelo de ensino é muito diferente do nosso. O professor entra no auditório sem falar nada, espera todo mundo ficar em silêncio e dá aula. Não tinha uma interação direta. Na UnB, os professores estão o tempo todo perguntando o que estamos achando. A relação é totalmente diferente”, compara.

Para se acostumar com a nova rotina e a nova cultura, processo que não demorou muito a acontecer, a estudante contou com ajuda de brasileiros. “Meu irmão, por exemplo, foi para a Austrália e demorou um bom tempo para se adaptar. Comigo não aconteceu isso. Algumas coisas me ajudaram, como viajar com uma amiga do meu curso, ter contato com vários brasileiros e poder falar a língua. Se não fosse assim, eu acredito que teria sentido mais o choque (cultural).”

Ter contato com novas pessoas foi fundamental para a adaptação. “Conheci no meu curso umas meninas que me ligavam para chamar para sair, perguntar como estavam as coisas. Não foram acolhedoras igual aos brasileiros, mas muito simpáticas.” Mesmo com toda a ajuda, os cinco meses em Angers não fizeram com que a cidade francesa se tornasse o lar de Helena. “No fim, eu estava gostando bastante, mas eu não me sentia em casa. O clima é diferente, as comidas também.”

Na volta ao Brasil, a estudante não esperava se incomodar com os hábitos do próprio país, mas foi pega de surpresa. “Senti muito. Quando fui para a França, já imaginava sentir a diferença. Na hora de voltar, não estava esperando essa sensação.” Voltar a falar português foi a maior dificuldade. “Soltava o francês sem querer na rua”, diverte-se a jovem.

O antropólogo José Zuchiwschi ressalta que é comum que o choque cultural também ocorra no retorno para a cidade natal. “Algumas pessoas começam a achar a cultura do próprio país estranha e passam pelo mesmo processo de adaptação que se deu no exterior.” Nesses casos, a readequação costuma ser mais fácil e menos demorada.

Fonte: https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2015/04/16/noticias-saude,187774/deixar-um-pouco-de-lado-a-propria-cultura-ajuda-na-adaptacao-com-a-mud.shtml

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